O que te faz lembrar uma tarde gostosa na casa da vovó? Ah, bolinho de chuva com canela e açúcar e uma xícara de chá quentinho! E aquele abraço gostoso da mamãe quando ela voltava do trabalho no final do dia? Um mingau fumegante no pratinho de louça branca! Isso tudo nada mais é do que Comfort Food, aquilo que nos remete às boas lembranças, seja ela da infância ou de uma época muito boa das nossas vidas. Cada um de nós tem a sua Comfort Food que não é necessariamente a comida caseira. "Tem a ver com a história e a trajetória de cada um. Mais do que um alimento para o estômago, é um alimento para o espírito", afirma Eduardo Duó, jornalista, consultor, professor de gastronomia da FMU e sócio das pousadas Barulho D'Água, em Ilhabela (SP) e Ronco do Bugio, em Piedade (SP).
Os especialistas são unânimes em afirmar que Comfort Food nada mais é, na tradução literal da palavra, aquele alimento que abraça e conforta. O que importa, segundo Martha Autran, professora do curso de gastronomia da Universidade Anhembi-Morumbi e proprietária da NaDeli Delicatessen, de São Paulo, é a ação que ela desencadeia ao ativar a memória do consumidor para algo que reaviva bons momentos das refeições do passado.
"O consumidor percebe que se trata de Comfort Food por ser uma cozinha calorosa e não extremamente técnica", diz a professora. As receitas preparadas sob o conceito de Comfort Food, segundo ela, não necessitam de tecnologia de ponta, nem de utensílios sofisticados para extrair dos alimentos efeitos únicos e especiais. A comida apresenta um "espírito tradicional" sem que seja muito ortodoxa em sua composição. Como ela é preparada e servida pode variar conforme a raiz de cada região e suas tradições.
Para o coordenador do curso de tecnologia em gastronomia da Faculdade de Gestão e Serviços da Universidade Metodista de São Paulo, Marcelo Bergamo, Comfort Food é mais que comida, pois, ao colocarmos esse alimento na boca, um turbilhão de pensamentos corre pela nossa mente e coração. Duó vai ainda mais longe ao afirmar que Comfort Food pode ser até a bala Juquinha que você chupava quando criança, se ela te representar alguma coisa boa no seu passado. "Não é só a comida da mamãe que recebe essa denominação. Até junkie food pode levar você a uma lembrança muito boa da sua vida", diz o professor da FMU.
Mas por que esse termo e, mais ainda, por que começou a se investir nesse foco? "A gastronomia chegou a uma sofisticação tão grande que as pessoas estão despertando para as coisas simples, do mesmo jeito que a globalização acabou despertando para as questões regionais. É uma maneira de se proteger", responde Duó. Bergamo completa ainda que a Comfort Food tem alicerces profundos e familiares e vai no sentido contrário à corrente da desconstrução do alimento. "Ao invés de criar pratos moleculares, são criados pratos que esquentam o estômago e o coração", diz o coordenador da Metodista. E é exatamente por ser uma comida que depende de cada um, de cada lembrança, que não é possível falar em restaurantes que sirvam Comfort Food, conclui Marcelo Malta, coordenador do curso de gastronomia da FMU. "É muito pessoal e individual".